Fiscalização Tributária: Quais São os Direitos e Deveres da Sua Empresa

Fiscalização tributária: entenda direitos, deveres, etapas práticas e como contador e advogado podem atuar juntos para proteger a empresa.
Fiscalização tributária: entenda direitos, deveres, etapas práticas e como contador e advogado podem atuar juntos para proteger a empresa.

Quando uma fiscalização tributária chega ao escritório, ela não atinge apenas o cliente: ela impacta diretamente o contador responsável. 

Para um contador que gerencia dezenas de empresas do comércio, restaurantes e prestadores de serviços, receber uma notificação, termo de início de fiscalização tributária ou auto de infração significa interromper a rotina para revisar documentos, explicar procedimentos ao fiscal e orientar o cliente sob pressão.

A questão é que muitos contadores acabam assumindo responsabilidades que não são suas — ou, ao contrário, deixam de agir preventivamente por imaginar que certos passos cabem apenas ao advogado. Isso gera risco para o cliente e para o próprio escritório contábil.

Por isso, entender quais são os direitos e deveres durante a fiscalização tributária — e, principalmente, como contador e advogado podem atuar juntos — muda completamente o jogo. 

Quanto maior a clareza, menor a tensão, e maior a chance de conduzir o processo com segurança e previsibilidade.

Neste artigo, vamos seguir uma linha lógica, sem juridiquês e com profundidade, explicando:

  • o que é fiscalização tributária de forma objetiva;
  • quais são os direitos do contribuinte (e onde o contador entra);
  • os deveres do contribuinte que a empresa precisa cumprir;
  • como funciona a fiscalização tributária na prática;
  • os riscos de agir no improviso;
  • e um checklist final para prevenir problemas.

O objetivo é simples: dar ao contador a clareza necessária para orientar seus clientes e evitar erros comuns durante a fiscalização tributária, fortalecendo a parceria com o jurídico tributário.

O que é Fiscalização Tributária e Por Que Isso Afeta Empresas

Explicação simples e objetiva

Fiscalização tributária é o procedimento em que o Fisco revisa documentos, operações e registros da empresa para verificar se os tributos estão sendo recolhidos corretamente.

Isso pode acontecer na esfera:

  • federal (Receita Federal; PIS, COFINS, IRPJ, CSLL, INSS);
  • estadual (SEFAZ; ICMS);
  • municipal (prefeitura; ISS, taxas).

A fiscalização tributária pode ter início por diferentes motivos:

  • cruzamento eletrônico de dados;
  • inconsistências no SPED;
  • divergências entre notas fiscais e movimentação bancária;
  • denúncias;
  • operações específicas do setor (como fiscalização tributária de ICMS-ST, cartão, estoque etc.).

Para o cliente, isso significa pressão. Para o contador, significa responsabilidade técnica e organizacional, mas não necessariamente jurídica. E é justamente a confusão entre esses papéis que muitas vezes gera desgaste.

Situações comuns para contadores na fiscalização tributária

Alguns cenários clássicos da rotina de Paulo, como contador:

Situação 1: Documentos dispersos

  • O fiscal solicita livros e arquivos digitais que o cliente não enviou ao escritório → o contador fica refém da desorganização do empresário.

Situação 2: Questionamento de créditos

  • O fiscal questiona créditos de ICMS, PIS/COFINS ou ISS que dependem de análise jurídica → o contador se vê no dilema entre responder ou aguardar o advogado.

Situação 3: Intimação com prazo curto

  • A empresa recebe intimação com prazo de 10 dias úteis → o contador precisa reunir rapidamente documentos que estão dispersos.

Situação 4: Omissão de receita

  • A fiscalização tributária aponta “omissão de receita” de R$ 78.000 baseada em movimentação bancária → o contador precisa explicar o método de apuração, mas o enquadramento final exige interpretação tributária.

Essas situações mostram que a fiscalização tributária impacta a contabilidade diretamente, mas não é exclusividade dela — o jurídico e a gestão do cliente também estão envolvidos.

Entenda o Problema: Como Funciona a Fiscalização Tributária Eletrônica

A fiscalização tributária não é um evento isolado: ela faz parte de um sistema cada vez mais automatizado. O Fisco cruza:

  • SPED (fiscal e contábil);
  • notas fiscais eletrônicas;
  • declarações acessórias;
  • movimentações de cartão;
  • dados bancários (quando autorizados por lei ou decisão judicial);
  • dados de plataformas digitais;
  • informações de fornecedores e clientes.

Ou seja, a fiscalização tributária geralmente começa muito antes do fiscal aparecer. Ela começa nos cruzamentos eletrônicos.

O problema central é que:

  1. A maioria dos clientes não entende o que é fiscalização tributária — só se assusta.
  2. Muitos contadores não se posicionam estrategicamente — são reativos.
  3. Os direitos e deveres do contribuinte não são claros para ninguém, e isso abre espaço para improvisos.
  4. O fiscal não é “consultor” — ele não vai orientar sobre o que fazer, apenas exigir.

Sem clareza, o risco é:

  • entregar documentos exigidos em fiscalização tributária além do necessário;
  • assumir compromissos que caberiam ao advogado;
  • deixar de apresentar elementos importantes;
  • confundir prazos administrativos;
  • comprometer a defesa futura.

O contador precisa entender os limites e possibilidades da atuação do contador na fiscalização tributária.

Como Funciona a Fiscalização Tributária na Prática

Uma fiscalização tributária costuma seguir uma lógica geral:

1. Abertura formal da fiscalização tributária

A empresa recebe:

  • termo de início de fiscalização tributária;
  • notificação;
  • intimação fiscal;
  • despacho eletrônico.

Esse documento indica:

  • o fiscal responsável;
  • o período que será analisado;
  • quais tributos estão em revisão;
  • quais documentos exigidos em fiscalização tributária devem ser apresentados;
  • o prazo inicial de resposta (geralmente 10 a 30 dias).

Aqui é fundamental:

  • registrar a data de ciência;
  • guardar o documento original;
  • iniciar a organização interna.

2. Entrega de documentos e informações

O contador, nessa fase, é o responsável por organizar:

  • livros fiscais;
  • arquivos SPED;
  • demonstrativos contábeis;
  • relatórios de apuração;
  • notas fiscais eletrônicas;
  • conciliações.

Mas existem limites:

O contador não deve produzir interpretações tributárias profundas em nome do cliente — isso cabe ao advogado tributário.

3. Rodadas de intimações e esclarecimentos

É aqui que o fiscal aprofunda a fiscalização tributária:

  • diferença de estoque;
  • créditos questionáveis;
  • notas consideradas “irregulares”;
  • omissão de receitas por cruzamento eletrônico.

O atendimento a essas intimações fiscais deve ser:

  • técnico, mas objetivo;
  • fundamentado, mas dentro do escopo contábil;
  • acompanhado por advogado quando houver interpretação jurídica.

4. Emissão do auto de infração

Se o fiscal conclui que houve irregularidade, ele lavra um auto de infração. A partir daqui, termina a fiscalização tributária e começa o processo administrativo fiscal.

Nesse momento, contador e advogado tributário precisam atuar juntos:

  • o contador esclarece aspectos operacionais e numéricos;
  • o advogado conduz a defesa em fiscalização tributária, estratégia e impugnação.

O que a Empresa Precisa Analisar Durante a Fiscalização Tributária

1. A natureza da fiscalização tributária

  • É preventiva?
  • É especial?
  • É de revisão de créditos?
  • É de levantamento de estoque?
  • É de confronto bancário?

O tipo de fiscalização tributária define o tipo de documento e o tipo de resposta.

2. A consistência da escrita contábil e fiscal

O contador precisa avaliar:

  • se há divergência entre documentos enviados e lançamentos;
  • se existem lacunas de informações;
  • se há notas pendentes de escrituração;
  • se houve erro material que pode ser corrigido.

Essa avaliação é determinante para orientar o advogado sobre o que é defensável e o que não é.

3. O histórico fiscal da empresa

  • Há autuações anteriores semelhantes?
  • Há indícios de reincidência?
  • Há regimes especiais de tributação?
  • Há benefícios fiscais que o Fisco está questionando?

Ter esse panorama é essencial para uma resposta estruturada.

Riscos de Não Agir com Estratégia na Fiscalização Tributária

Ignorar a fiscalização tributária ou agir no improviso gera consequências graves:

1. Entrega incorreta ou incompleta de documentos

Isso pode levar o fiscal a:

  • concluir que há omissão;
  • interpretar falta de informação como irregularidade;
  • gerar autuação maior do que a realidade.

2. Extrapolação involuntária de competência

Quando o contador tenta “resolver juridicamente” a situação:

  • pode comprometer a linha argumentativa da defesa em fiscalização tributária;
  • pode assumir responsabilidades do contador na fiscalização fiscal que não são suas;
  • pode criar contradições com a futura impugnação.

3. Autuações mais pesadas

Respostas mal construídas podem:

  • aumentar a base de cálculo;
  • incluir períodos adicionais;
  • justificar multas mais altas (75% a 150% do valor principal).

Por isso, fiscalização tributária nunca deve ser tratada como algo “simples”.

Checklist Final Aplicar na Fiscalização Tributária

Antes da fiscalização tributária

☐ SPED consistente

☐ Conciliações atualizadas

☐ Documentos digitalizados

☐ Fluxo interno de comunicação com cliente

☐ Acordo de parceria com advogado tributarista

Durante a fiscalização tributária

☐ Registrar data de ciência

☐ Organizar documentos por intimação

☐ Acompanhar prazos

☐ Registrar todas as respostas

☐ Alinhar cada resposta com o jurídico

Após a emissão do auto

☐ Enviar auto imediatamente ao advogado

☐ Organizar dossiê documental

☐ Preparar notas técnicas para apoiar a defesa

☐ Manter cliente informado das etapas

☐ Planejar próximos passos (impugnação, recurso, ajustes internos)

O Papel do Advogado Tributário na Fiscalização (Sem Promessa de Resultado)

Durante a fiscalização tributária, o advogado tributarista:

  • delimita direitos e deveres do contribuinte;
  • evita interpretações extensivas do fiscal;
  • orienta sobre o que o fiscal pode exigir da empresa;
  • prepara respostas formais quando há risco jurídico;
  • conduz eventual impugnação e recursos administrativos;
  • revisa e estrutura documentos e argumentos apresentados pelo contador.

O contador oferece o conhecimento operacional e documental;o advogado oferece o enquadramento jurídico e estratégico.

Essa atuação conjunta contador e advogado evita autuações desnecessárias e fortalece o atendimento ao cliente.

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