Quem está na rotina de um restaurante já sabe que o custo do prato não é só ingredientes, gás e folha de pagamento. Por trás de cada venda existe uma carga de tributos que, muitas vezes, o empresário não consegue enxergar com clareza.
Com a reforma tributária, essa equação muda de forma ainda mais visível: entram em cena dois novos tributos – CBS e IBS – que vão redefinir como o imposto aparece no preço final.
O problema é que a sigla muda, as notícias se acumulam, mas ninguém senta com o empresário para explicar de forma direta: o que são CBS e IBS?, qual a diferença entre elas?, como vão impactar o preço do cardápio, do estoque, dos serviços contratados?. Enquanto isso, decisões de reajuste, negociações com fornecedores e planejamento de expansão continuam sendo tomadas com base em um sistema que está em transição.
Este artigo, em formato de guia técnico estratégico, organiza exatamente esse assunto. A ideia é mostrar, com profundidade e linguagem acessível:
- o que são CBS e IBS e por que eles são o centro da nova tributação sobre consumo;
- como esses tributos funcionam na prática, especialmente para negócios de alimentação, comércio e hotelaria;
- de que forma podem influenciar a formação de preços e a margem da empresa;
- quais são os erros mais comuns ao ignorar essa transição;
- e que passos concretos podem ser dados desde já para se preparar.
Sem promessas, sem terrorismo fiscal, mas com a clareza que você precisa para tomar decisões melhores.
O que são CBS e IBS e por que isso afeta empresas
Explicação simples e objetiva
A CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) e o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) são os dois novos tributos criados para substituir, gradualmente, boa parte dos impostos atuais sobre o consumo. Em linhas gerais:
- A CBS é um tributo federal que vem para unificar contribuições como PIS e COFINS.
- O IBS é um tributo compartilhado entre estados e municípios, que, ao longo da transição, substituirá ICMS e ISS.
Na prática, eles seguem a lógica de um imposto sobre valor agregado: cada etapa da cadeia paga imposto apenas sobre o valor que adiciona ao produto ou serviço, com direito a créditos sobre o que foi pago nas etapas anteriores, desde que estejam respeitadas as regras de cada tributo.
Isso afeta diretamente as empresas porque:
- muda a forma de calcular tributos sobre vendas;
- altera a dinâmica de créditos sobre compras e despesas;
- exige adaptação de sistemas, contratos e processos;
- influencia o preço final que chega ao consumidor.
Para um restaurante, por exemplo, isso não é teoria: é impacto em compras de alimentos, bebidas, insumos, serviços terceirizados, aluguel de máquinas, plataformas digitais e assim por diante.
Situações comuns
No dia a dia de um restaurante, o gestor lida com uma lista extensa de fornecedores: atacadista de alimentos, distribuidora de bebidas, empresa de gás, serviço de manutenção, plataformas de delivery, sistemas de gestão. Hoje, cada uma dessas operações tem um tratamento tributário específico, com tributos diferentes embutidos no preço.
No comércio varejista, o desafio está na quantidade de itens, códigos, origens e alíquotas. Produtos diferentes podem ter tratamentos distintos, e qualquer erro de classificação ou parametrização impacta diretamente a carga tributária.
Na hotelaria, a mistura de hospedagem, alimentação, eventos, locação de espaços e outros serviços torna a leitura tributária ainda mais complexa. Alguns itens sofrem incidência de tributos locais, outros de tributos federais, e a empresa precisa harmonizar tudo isso em uma só estrutura de preços.
A entrada de CBS e IBS busca simplificar esse cenário, mas a simplificação só chega para quem se organiza para entender e operar dentro do novo modelo.
Guia técnico estratégico – CBS e IBS
Conceito e visão geral
O ponto central da mudança é a tentativa de unificar e racionalizar a tributação sobre consumo. Em vez de lidar com uma combinação de tributos com bases e regras diferentes, a empresa passa a trabalhar com dois impostos principais sobre bens e serviços.
Do ponto de vista estratégico, é importante entender três ideias:
- Base ampla
Tanto CBS quanto IBS tendem a incidir sobre uma base mais ampla de operações, alcançando bens e serviços de forma mais uniforme. Isso reduz o número de exceções e tratamentos especiais, mas exige atenção na classificação de tudo o que a empresa vende e compra. - Crédito financeiro
O modelo é desenhado para permitir que a empresa recupere o imposto pago nas etapas anteriores através de créditos. Isso significa que o tributo incidente nas compras pode ser abatido do tributo devido nas vendas, desde que respeitados os critérios legais. - Transparência na cadeia
A lógica do imposto sobre valor agregado traz mais visibilidade sobre quanto de tributo está embutido em cada etapa, permitindo uma análise mais precisa de margem, custo e formação de preço.
Em síntese: CBS e IBS não são apenas “novos nomes”, mas uma mudança de lógica. Isso exige uma postura mais ativa do empresário na gestão tributária.
Funcionamento em detalhes (como o sistema opera)
Créditos e débitos: o coração do modelo
Tanto na CBS quanto no IBS, a dinâmica básica é de crédito e débito:
- nas compras, a empresa paga CBS/IBS embutidos nos preços e adquire o direito de registrar esse valor como crédito;
- nas vendas, a empresa calcula o imposto devido sobre sua própria operação, gerando um débito;
- na apuração, compensa débitos com créditos e recolhe a diferença.
Para que isso funcione bem na prática, é indispensável:
- ter notas fiscais corretamente emitidas, com destaque dos tributos;
- organizar lançamentos por tipo de operação;
- garantir que o sistema contábil e fiscal esteja parametrizado para registrar créditos admissíveis.
Se a documentação estiver desorganizada ou se o sistema não estiver preparado, a empresa corre o risco de pagar tributo sobre toda a sua receita sem aproveitar corretamente os créditos a que tem direito.
Impacto na formação de preço
Quando se fala que CBS e IBS afetam o preço final, isso não significa, automaticamente, que tudo ficará mais caro ou mais barato. O ponto é que a forma de embutir o tributo no preço muda.
O empresário precisará considerar:
- qual será a alíquota efetiva de CBS e IBS sobre as suas operações;
- quanto de crédito poderá recuperar sobre insumos, mercadorias, serviços e estrutura;
- como essa carga tributária se compara ao cenário atual;
- qual é o espaço real de repasse ao consumidor, considerando concorrência e posicionamento.
Para um restaurante, por exemplo, essa conta envolve cruzar tributos sobre compras de alimentos, bebidas e serviços (como limpeza, manutenção, sistemas) com o tributo sobre o valor final cobrado do cliente. Uma alteração na alíquota ou na base pode exigir ajustes finos de cardápio, porções, combos e estratégias de venda.
Convivência com o sistema atual
Durante um período de transição, o mais provável é que o empresário tenha que conviver com:
- tributos antigos (como PIS, COFINS, ICMS, ISS), em redução gradual;
- CBS e IBS sendo introduzidos progressivamente, com alíquotas de teste e ajustes.
Isso significa, na prática, viver em dois sistemas ao mesmo tempo, o que aumenta a importância de:
- ter um controle claro de qual tributo incide em cada fase;
- acompanhar de perto as atualizações legais;
- trabalhar com sistemas e processos capazes de lidar com essa dupla realidade.
Negligenciar essa transição pode gerar erros de cálculo, recolhimentos a maior ou a menor, e potencializar o risco de autuações.
Impactos financeiros para as empresas
O impacto financeiro de CBS e IBS passa por três dimensões principais: carga tributária, fluxo de caixa e competitividade.
Carga tributária
A grande pergunta é se a empresa vai pagar mais ou menos tributo. A resposta depende da combinação entre:
- alíquotas aplicáveis ao setor;
- estrutura de custos (quanto a empresa gasta e em quê);
- capacidade de aproveitar créditos de forma eficiente.
Empresas que hoje têm muita despesa que não gera crédito podem se beneficiar de um modelo de crédito mais amplo. Já aquelas que usufruem de regimes especiais e benefícios específicos podem sentir uma aproximação maior da tributação padrão.
Fluxo de caixa
Mesmo com modelo de crédito e débito, é preciso considerar quando o tributo é pago e quando o crédito é efetivamente aproveitado. Mudanças de regra podem antecipar ou postergar pagamentos, alterando a curva de caixa.
Para negócios de giro rápido, como restaurantes, qualquer alteração na relação entre prazo de recebimento e prazo de pagamento de tributos merece atenção, porque pode:
- apertar o caixa em períodos de alta;
- comprometer capacidade de investimento;
- exigir ajustes em prazos com fornecedores ou renegociação com bancos.
Competitividade
CBS e IBS também mexem na forma como os concorrentes se posicionam. Empresas que se estruturarem para aproveitar créditos de maneira eficiente podem conseguir trabalhar com preços mais competitivos ou com margens mais saudáveis.
Quem não se organizar para isso pode perder espaço por simplesmente não conseguir enxergar onde está deixando dinheiro na mesa na forma de crédito não aproveitado.
Impactos por setor
Restaurantes
Para restaurantes, bares e cafeterias, o impacto de CBS e IBS passa por:
- maior clareza na tributação de insumos, mercadorias e serviços;
- necessidade de integrar sistema de frente de caixa, estoque e contabilidade;
- revisão da formação de preço de pratos, combos e promoções.
Um restaurante que compra de diversos fornecedores, utiliza plataformas de delivery e presta serviço em eventos precisa de um desenho claro de como sua operação será tributada em cada etapa, para não comprometer a margem sem perceber.
Comércio varejista
No comércio varejista, a chave está na classificação correta de produtos e na organização de créditos. Lojas de roupas, calçados, eletrodomésticos e outros segmentos precisarão:
- revisar o cadastro de produtos;
- alinhar códigos, descrições e parâmetros fiscais;
- acompanhar de perto como CBS e IBS vão tratar diferentes mercadorias.
Aqui, qualquer descuido na classificação pode significar recolher mais do que o devido ou assumir riscos desnecessários.
Hotéis e turismo
Na hotelaria, a complexidade vem da combinação de serviços: hospedagem, alimentação, eventos, locação de espaços, pacotes, parcerias com agências e plataformas. A entrada de CBS e IBS exigirá:
- olhar para cada tipo de serviço prestado;
- entender como esses serviços se encaixam nas regras dos novos tributos;
- revisar contratos com empresas, plataformas e fornecedores para adequar cláusulas tributárias.
Nesse setor, a capacidade de planejar a tributação de pacotes e contratos de longo prazo pode ser decisiva para manter competitividade.
Recomendações estratégicas
Diante desse cenário, algumas atitudes estratégicas se destacam:
- Tratar CBS e IBS como projeto, não apenas como “ajuste do contador”
A transição para os novos tributos precisa entrar no planejamento do negócio, com etapas, responsáveis e revisões periódicas. - Reforçar a parceria com a contabilidade
Não adianta receber relatórios prontos sem discutir o que mudou. É importante reservar tempo para entender a lógica dos novos tributos, revisar práticas e alinhar expectativas. - Rever sistemas e processos internos
Frente de caixa, estoque, faturamento, compras e financeiro precisam falar a mesma língua. Um ajuste técnico feito pela contabilidade pode não surtir efeito se o sistema de vendas continuar parametrizado de forma antiga. - Projetar cenários de preço
Vale simular, ainda que de forma aproximada, como CBS e IBS podem influenciar a formação de preço do cardápio, das mercadorias ou dos serviços. Isso permite planejar reajustes com antecedência e comunicar mudanças com transparência. - Registrar decisões e políticas internas
Documentar o racional por trás das escolhas tributárias ajuda a dar segurança e coerência ao longo do tempo, além de facilitar futuras defesas em caso de fiscalização.
Checklist ou síntese prática para o empresário aplicar
Para transformar o tema em ação, vale um checklist simples, mas objetivo:
- Fazer um levantamento, com a contabilidade, dos principais tributos hoje incidentes sobre vendas e compras da empresa.
- Identificar quais custos e despesas hoje não geram crédito e que podem ter tratamento diferente com CBS e IBS.
- Verificar se os sistemas utilizados (frente de caixa, gestão, ERP) estão preparados para trabalhar com os novos tributos.
- Selecionar os principais produtos ou serviços do negócio e testar cenários de formação de preço considerando CBS e IBS.
- Definir um responsável interno para acompanhar as notícias e atualizações sobre a reforma e levar os pontos relevantes para discussão com contador e jurídico.
Esse movimento não encerra o tema, mas evita que a empresa entre na nova fase completamente no escuro.
Erros que custam caro
Alguns erros podem sair particularmente caros nessa transição:
Empurrar o tema com a barriga.
Esperar que “tudo esteja pronto e mastigado” para só então agir costuma significar ser obrigado a adaptar sistemas, contratos e processos sob pressão, aumentando o risco de falhas.
Tratar CBS e IBS como mudança apenas de alíquota.
Focar apenas em “quanto vai ser a alíquota” e ignorar o desenho de créditos, a forma de registro e os impactos em cadeia impede que a empresa aproveite oportunidades de organização.
Não envolver a operação.
Deixar a reforma só na mão do financeiro e da contabilidade, sem incluir compras, vendas, faturamento e até o time de gestão, faz com que ajustes importantes deixem de ser implementados no dia a dia.
Ignorar a necessidade de documentação robusta.
Créditos só são aproveitados com base em documentos consistentes. Não cuidar de notas fiscais, classificações e contratos deixa a empresa vulnerável a pagar mais tributo do que deveria.
Comparar-se apenas pela percepção dos outros.
Tomar decisões porque “ouvi dizer que tal empresa vai pagar menos” é perigoso. Cada negócio tem uma realidade específica. A estratégia precisa ser desenhada em cima de dados próprios.
Papel do advogado
O advogado tributarista, nesse cenário de CBS e IBS, atua como um elo entre a linguagem jurídica da reforma e a rotina prática do negócio. Ele:
- traduz as normas e regulamentações de forma que o empresário consiga entender o que muda de fato;
- trabalha em conjunto com a contabilidade para estruturar políticas internas de tributação, crédito e registro;
- auxilia na revisão de contratos com fornecedores, clientes e parceiros, ajustando cláusulas que envolvam repasse e tratamento de tributos;
- identifica pontos de risco e oportunidades de organização dentro das regras vigentes, sempre com foco em segurança jurídica.
Não se trata de prometer redução de carga tributária, mas de oferecer clareza e estrutura para que a empresa atravesse a transição de forma mais consciente e protegida dentro da lei.
Empresas que enxergarem esses novos tributos como parte de uma estratégia de organização – e não apenas como obrigação burocrática – têm mais chances de se posicionar melhor no mercado, aproveitar créditos com eficiência e evitar surpresas desagradáveis ao longo da transição.
O primeiro passo é simples: parar de tratar o tema como um “ruído distante” e começar a organizá-lo como projeto dentro do negócio.
Quer saber quanto sua empresa vai pagar com a CBS e o IBS?