Quando se fala em planejamento tributário na Reforma Tributária, a sensação de muitos empresários e contadores é a mesma: todo mundo sabe que precisa se organizar, mas quase ninguém enxerga com clareza por onde começar. As siglas mudam (CBS, IBS, IVA), os prazos vão sendo anunciados, as notícias se acumulam — e, no meio disso, o negócio segue funcionando com base em um sistema que está caminhando para a despedida.
Enquanto isso, o caixa continua pressionado, o custo dos insumos aumenta, a concorrência se reposiciona e o tema “Reforma Tributária” muitas vezes aparece só como um slide em alguma apresentação ou uma pauta perdida entre outras urgências.
O risco aqui é simples: continuar tomando decisões de hoje com uma lógica de tributos que não será a mesma de amanhã.
Este artigo, em formato de guia técnico e estratégico, tem um objetivo direto: mostrar como o planejamento tributário muda (e precisa mudar) na era da CBS e do IBS, com foco na prática. Vamos organizar:
- o que é, afinal, esse planejamento tributário em contexto de Reforma;
- como o novo modelo de tributação sobre consumo funciona em linhas gerais;
- que impactos isso traz para empresas de comércio, alimentação e serviços;
- como contadores e empresários podem se organizar em conjunto;
- quais erros tendem a custar caro na transição;
- e qual checklist mínimo pode orientar um plano real de adequação.
A intenção não é vender uma visão otimista nem fazer terrorismo fiscal. É colocar o tema na mesa com clareza para que você, como empresário ou contador parceiro, consiga transformar a Reforma em projeto estratégico, não em susto.
O que é planejamento tributário na Reforma e por que isso afeta empresas
Explicação simples e objetiva
Planejamento tributário, no contexto da Reforma, não é apenas “pagar menos imposto”. Essa visão é curta e perigosa. O foco passa a ser:
- entender como CBS e IBS incidem sobre o seu negócio;
- organizar a empresa para aproveitar corretamente créditos;
- alinhar sistemas, contratos e processos ao novo modelo;
- tomar decisões de preço, expansão e investimento considerando a nova lógica de tributação sobre consumo.
A Reforma não cria a necessidade de planejamento tributário — ela expõe quem não o faz. Empresas que hoje já têm dificuldade para entender ICMS, ISS, PIS e COFINS tendem a sentir ainda mais o peso da transição se continuarem operando “no automático”.
Situações comuns
Na prática, isso aparece de formas bem concretas:
- Um restaurante que forma preço olhando apenas custo de insumo e concorrência, sem entender qual será a carga efetiva de CBS e IBS sobre seus pratos, bebidas, delivery e eventos.
- Um comércio varejista que vende em loja física e on-line, com mercadorias de várias origens, sem um cadastro bem estruturado, sem simular o impacto da Reforma em diferentes linhas de produto.
- Uma empresa de serviços ou hotelaria que trabalha com contratos de longo prazo, sem cláusulas claras de repasse de tributos, e corre o risco de absorver sozinha mudanças de carga tributária ao longo da transição.
Em todos esses casos, o planejamento tributário na era da CBS e IBS passa a ser menos “opcional” e mais condição básica de sobrevivência com margem e segurança.
Conceito e visão geral de planejamento tributário com CBS e IBS
O ponto de partida é entender que a Reforma reorganiza a tributação sobre consumo em direção a um modelo de imposto sobre valor agregado (IVA), com duas peças principais:
- CBS – de competência federal, substituindo contribuições como PIS e COFINS;
- IBS – de competência compartilhada entre estados e municípios, substituindo tributos como ICMS e ISS.
Nesse ambiente, o planejamento tributário deixa de ser apenas “qual regime escolher” e passa a envolver pelo menos quatro linhas de análise:
- Mapeamento da cadeia de valor
De onde vem a receita? Quais são os canais de venda? Como o serviço ou produto chega ao cliente final? - Mapeamento de custos e despesas
Quais insumos e serviços são essenciais à operação? O que pode gerar crédito? O que permanece como custo sem recuperação? - Organização de informações e sistemas
Como os dados circulam entre frente de caixa, estoque, reservas, financeiro e contabilidade? - Estratégia de médio e longo prazo
Onde a empresa quer estar em dois, cinco anos? Em qual modelo de tributação ela se encaixa melhor ao longo da transição?
Planejamento tributário, aqui, é ler essa fotografia com olhar técnico e desenhar caminhos que minimizem riscos, ajudem a preservar caixa e deixem a empresa em posição competitiva dentro da lei.
Funcionamento em detalhes: como o sistema opera e muda a lógica de planejamento
Na lógica da CBS e do IBS, três elementos são centrais para o planejamento tributário: créditos, débitos e transição.
Créditos e débitos no dia a dia
Cada compra relevante para o negócio tende a gerar crédito de CBS e IBS, e cada venda gera débito. Na apuração, a empresa compensa um com o outro e recolhe a diferença.
O planejamento entra em perguntas como:
- Quais gastos, na estrutura atual, passarão a gerar crédito?
- A empresa tem documentação e sistemas preparados para registrar esses créditos corretamente?
- Existe algum tipo de compra ou serviço hoje contratado de forma informal ou sem nota, que precisa ser revisto?
Se o empresário não se organizar, o modelo de IVA vira apenas “mais um imposto”. Se ele se organiza, o sistema passa a ser um instrumento de gestão, permitindo saber com mais precisão quanto se paga de tributo em cada etapa.
Transição tributária e planejamento em camadas
Durante alguns anos, o cenário provável é de convivência entre o sistema antigo e o novo. Isso significa que:
- velhos tributos ainda existirão, em redução gradual;
- CBS e IBS entrarão com alíquotas de teste e ajustes;
- regras serão detalhadas e ajustadas ao longo da implementação.
O planejamento tributário, nesse contexto, precisa ser desenhado em camadas:
- Camada 1 – Diagnóstico do hoje: como a empresa é tributada hoje? Quais regimes utiliza? Onde estão os maiores gargalos?
- Camada 2 – Cenários de transição: o que muda ano a ano? Em qual momento o impacto tende a ser maior?
- Camada 3 – Estado futuro desejado: em que estrutura a empresa quer chegar ao fim da transição? Qual mix de atividades? Qual perfil de clientes?
Sem esse olhar em camadas, a empresa tende a reagir só quando uma regra entra em vigor, sempre correndo atrás — e isso é o contrário de planejamento.
Impactos financeiros para as empresas: por que o planejamento muda de patamar
A estratégia fiscal com CBS e IBS influencia diretamente três frentes financeiras: carga tributária, fluxo de caixa e investimentos.
Carga tributária: mais visível, não necessariamente menor
A Reforma tende a tornar a tributação sobre consumo mais transparente, mas isso não significa que, automaticamente, a empresa pagará menos. O efeito depende de:
- alíquotas aplicáveis ao setor;
- grau de organização para aproveitar créditos;
- forma como a empresa se posiciona na cadeia (varejo, serviços B2B, B2C, etc.).
Sem planejamento, o empresário apenas sente que “os impostos estão elevados”. Com planejamento, ele consegue medir, comparar e decidir se o modelo está adequado ou se precisa ser ajustado.
Fluxo de caixa e calendário de pagamento
Planejamento tributário na era da CBS e IBS também passa por quando o tributo é pago e como ele impacta o fluxo de caixa. Em setores de giro rápido, como comércio e alimentação, antecipações ou mudanças de prazo podem:
- pressionar capital de giro;
- reduzir margem em períodos sazonais;
- exigir renegociação com fornecedores e bancos.
Ao projetar essa curva de pagamentos e créditos, a empresa consegue se organizar melhor, em vez de ser surpreendida por obrigações em momentos de caixa mais frágil.
Decisões de investimento
Decidir abrir uma nova unidade, ampliar cozinha, investir em tecnologia ou entrar em outro estado passa a exigir, também, a leitura do cenário tributário pós-Reforma. Sem esse filtro, a empresa assume compromissos de longo prazo com base em premissas que podem mudar no curto prazo.
Impactos por setor: comércio, restaurantes e serviços
Embora a lógica da Reforma seja geral, o impacto setorial é bem diferente quando se compara comércio, alimentação e serviços.
Comércio varejista
No varejo, o planejamento tributário na Reforma passa por:
- revisão aprofundada do cadastro de produtos;
- mapeamento de mercadorias por origem, tipo e alíquota;
- análise de operações interestaduais;
- adequação de sistemas de e-commerce e marketplaces ao novo modelo.
Uma loja que não tratar isso como prioridade tende a enfrentar diferenças de cálculo, problemas de classificação e, possivelmente, questionamentos futuros do Fisco.
Restaurantes e bares
No setor de alimentação fora do lar, a CBS e o IBS impactam:
- compras de alimentos, bebidas, embalagens e insumos;
- contratações de serviços terceirizados (limpeza, segurança, manutenção);
- uso de plataformas de delivery e meios de pagamento.
Um planejamento tributário bem feito ajuda a empresa a entender onde há espaço de crédito, como ajustar a formação de preço de pratos e combos, e como estruturar os contratos com parceiros para não assumir sozinho o peso da mudança.
Serviços e turismo
Empresas de serviços em geral, clínicas, escritórios, hotéis e pousadas precisam:
- revisar a tributação de pacotes que combinem hospedagem, alimentação, eventos e serviços agregados;
- analisar contratos corporativos de longa duração;
- ajustar cláusulas de revisão e repasse de tributos.
Sem isso, a empresa corre o risco de trabalhar com contratos que, na prática, se tornam menos viáveis à medida que a Reforma avança.
Recomendações estratégicas: como redesenhar o planejamento tributário
Planejamento tributário na era da Reforma não se faz em um único movimento. Ele precisa ser estruturado em etapas, com visão prática.
1. Construir um diagnóstico tributário atual
Antes de qualquer simulação, é indispensável saber como a empresa está hoje:
- quais tributos incidem sobre suas operações principais;
- qual o regime aplicável a cada atividade;
- quais créditos já são aproveitados;
- onde há pontos cegos (despesas sem nota, operações mal classificadas, sistemas desatualizados).
Esse diagnóstico é a “fotografia” que permite comparar o antes e o depois.
2. Desenvolver cenários de transição
Com a fotografia em mãos, o próximo passo é trabalhar com cenários de transição tributária:
- que mudanças são mais prováveis em curto prazo;
- como as alíquotas de CBS e IBS podem se comportar no seu setor;
- qual será o impacto provável sobre suas principais linhas de produto ou serviço.
Não se trata de prever o futuro com exatidão, mas de evitar decisões totalmente no escuro.
3. Reforçar a parceria entre contador e jurídico
A integração entre contabilidade e advocacia tributária deixa de ser diferencial e vira necessidade. O contador conhece a operação e os números; o advogado interpreta normas, riscos e limites legais. Juntos, conseguem:
- alinhar teses e práticas à realidade da empresa;
- evitar soluções apenas “criativas” sem base jurídica;
- fortalecer a defesa da empresa em eventuais questionamentos.
4. Revisar contratos e políticas internas
Planejamento tributário também passa por papel e assinatura:
- contratos de fornecimento, locação, prestação de serviços, parcerias e franquias precisam ser revisados com o olhar da Reforma;
- políticas internas de emissão de notas, concessão de descontos, campanhas e bonificações precisam ser compatíveis com o novo modelo.
Sem essa revisão, o melhor desenho tributário pode ser inviabilizado por contratos mal redigidos.
5. Investir em organização de dados e sistemas
A inteligência tributária na era da CBS e IBS depende da qualidade dos dados. Isso significa:
- sistemas integrados entre vendas, estoque, reservas e contabilidade;
- cadastros limpos, sem duplicidades e com classificações corretas;
- processos internos claros para lançamento e conferência de operações.
Sem dados, não há planejamento. Há apenas tentativa e erro.
Checklist de preparação para o planejamento tributário na Reforma
Para facilitar a aplicação prática, vale organizar um checklist síntese:
- Levantar tributos atuais e regimes aplicáveis às principais atividades.
- Revisar o cadastro de produtos e serviços com o contador, à luz do novo modelo de consumo.
- Mapear as principais despesas e insumos para identificar potencial de crédito em um cenário de CBS/IBS.
- Testar, ainda que de forma simples, cenários de preço e margem já considerando tributos sobre valor agregado.
- Revisar contratos de fornecimento e de prestação de serviços, incluindo cláusulas de tributos e repasse.
- Verificar se os sistemas utilizados suportam mudança de regras e adequação a novos códigos e tributos.
- Estabelecer uma rotina de reuniões entre empresário, contador e jurídico para acompanhamento da transição.
Esse checklist não substitui um plano detalhado, mas serve como ponto de partida concreto.
Erros que custam caro na estratégia fiscal com CBS e IBS
Alguns erros tendem a se repetir quando o assunto é planejamento tributário na Reforma:
- Reduzir planejamento a “pagar o mínimo possível”
Planejar não é apenas buscar redução. É garantir segurança, previsibilidade e coerência com a realidade do negócio.
- Deixar tudo na mão de planilhas isoladas
Em um cenário de maior transparência e cruzamento de dados, depender de planilhas soltas, sem integração com sistemas, é um convite ao erro.
- Ignorar a fase de transição
Focar só no cenário final, sem olhar para o caminho, pode levar a decisões que funcionam em teoria, mas quebram o caixa no meio do caminho.
- Adotar soluções “milagrosas” sem lastro jurídico
Estratégias que prometem reduções expressivas sem base sólida tendem a se transformar em passivo futuro.
- Não registrar as decisões tomadas
Decidir hoje, mas não documentar o racional, dificulta a defesa da empresa lá na frente, caso alguma escolha seja questionada.
Papel do jurídico
Na era da CBS e IBS, o advogado tributarista atua como parceiro estratégico ao lado da contabilidade, e não apenas como “resolvedor de processos”. Entre as frentes de atuação, estão:
- interpretar a legislação da Reforma e suas regulamentações à luz da realidade de cada empresa;
- apoiar o desenho de políticas internas de emissão de notas, aproveitamento de créditos e enquadramento de operações;
- revisar contratos e documentos para adequar cláusulas tributárias e de repasse;
- mapear riscos e oportunidades dentro do que é legalmente permitido, auxiliando na construção de um planejamento robusto;
- atuar em defesas administrativas e judiciais quando necessário, com base em uma história bem documentada das decisões da empresa.
Não se trata de prometer redução de tributos ou resultados específicos, mas de oferecer estrutura, clareza e segurança jurídica para que as decisões estratégicas tenham base sólida.
A escolha, no fim, não é se a empresa será ou não impactada — isso já está dado. A escolha é como ela vai atravessar esse processo: reagindo a cada novidade, ou construindo, desde já, uma estratégia fiscal consistente para a era da CBS e do IBS.
Nosso escritório apoia empresas e contadores na elaboração de planos de adequação à Reforma Tributária. Se fizer sentido para o seu negócio, agende uma conversa com nossa equipe.