Vários CNPJs no Simples Nacional: quando isso ajuda e quando vira risco

Se você tem mais de uma empresa no Simples Nacional “para dar conta do faturamento”, a intenção costuma ser simples: separar atividades, organizar finanças, proteger a operação e — muitas vezes — manter o enquadramento.

O problema é que, quando múltiplos CNPJs no Simples existem só “no papel”, sem separação real de operação, gestão e riscos, o tema deixa de ser só tributário e vira risco estrutural: autuação, exclusão do regime, passivo retroativo, conflitos societários e perda de controle.

E aqui está o ponto que muita gente ignora: abrir CNPJ não resolve desorganização. Às vezes, multiplica.

Posso abrir mais um CNPJ no Simples Nacional?

Ter várias empresas no Simples Nacional significa operar com mais de um CNPJ dentro do regime simplificado (ou ao menos tentar manter todos no Simples), normalmente com a justificativa de:

  • separar atividades (ex.: loja física x e-commerce);
  • separar unidades (ex.: matriz x filial, ou empresas “espelho” por localidade);
  • separar sócios (ex.: cada sócio com um CNPJ);
  • separar riscos (ex.: uma empresa “vende”, outra “contrata”, outra “possui ativos”);
  • ou “organizar faturamento” quando o volume cresce.

Isso pode ser legítimo.

Mas o que define o risco não é a quantidade de CNPJs. É a realidade do dia a dia: se existe autonomia de operação, gestão, riscos e documentação, ou se as empresas são apenas “caixas” para dividir receita.

Além disso, o Simples tem regras que analisam vínculos societários e receita bruta global em várias situações (ex.: participação de sócios em outras empresas, administradores em outras pessoas jurídicas, entre outras hipóteses), justamente para evitar uso indevido do regime.

Vários CNPJs “para dar conta do faturamento”

Esse cenário costuma ter alguns padrões — e eles aparecem em auditoria, fiscalização e conflitos internos.

Como ele costuma nascer

  • A empresa cresce e “encosta” em limites do regime ou começa a sentir imposto pesar.
  • Alguém sugere “abre outro CNPJ” para organizar e continuar operando.
  • O foco fica no cadastro e na abertura, e não na governança.

Como ele aparece no dia a dia

  • Uma operação só: o cliente nem entende que existem empresas diferentes.
  • Um caixa só: recebimentos e pagamentos se misturam, ou há transferências constantes sem critérios.
  • Mesma equipe fazendo tudo sem alocação formal (ou sem contratos/escopos claros).
  • Mesmo fornecedor e mesmo estoque, com notas emitidas “conforme conveniência”.
  • Decisão centralizada em uma pessoa, mesmo com CNPJs “teoricamente independentes”.
  • Contrato social genérico e ausência de acordo interno de decisões e responsabilidades.

Por que isso vira risco de verdade

  1. Risco tributário e cadastral
    Quando o arranjo indica fracionamento artificial, o risco não é “teórico”: pode levar a questionamentos, autuações e consequências que incluem exclusão do regime e cobrança com encargos, dependendo do caso e da materialidade apurada.
  2. Risco trabalhista e operacional
    Equipe transitando entre empresas sem amarração documental adequada vira combustível para discussões sobre quem é o real empregador, quem assume obrigações e como ficam responsabilidades.
  3. Risco societário
    Sem regras claras, o “acordo verbal” vira briga quando: entra investimento, alguém quer sair, alguém entende que trabalhou mais e merece mais, ou quando aparece prejuízo e ninguém quer assumir.
  1. Risco de gestão (o mais silencioso)
    Muitos CNPJs “sem método” criam: retrabalho, contabilidade confusa, relatórios pouco confiáveis, decisão baseada em sensação (“estamos vendendo bem”) em vez de margem real.

Checklist para o empresário aplicar

Se você já tem (ou pensa em ter) mais de um CNPJ no Simples, use este checklist como filtro:

  1. Objetivo claro: o que exatamente será separado (atividade, canal, unidade, risco, sócio, ativo)?
  2. Risco e passivo: onde estão ativos, dívidas e obrigações? Isso faz sentido com o desenho?
  3. Plano de crescimento: a estrutura aguenta expansão sem virar confusão?

Se você marcou “não sei”, não é sinal de que está “errado”. É sinal de que precisa organizar antes de crescer mais.

Papel do jurídico

Nesse tema, o advogado empresarial/tributário entra antes do problema explodir, para:

  • transformar “vontade de organizar” em estrutura defensável;
  • desenhar o modelo (múltiplas empresas, filiais, separação por atividade/canal) com base em objetivo, risco e operação;
  • ajustar contrato social, poderes e regras de decisão;
  • construir acordo de sócios quando necessário (entrada/saída, lucros, administração, conflitos);
  • revisar contratos com fornecedores, parceiros e plataformas para alinhar com a estrutura;
  • trabalhar em conjunto com a contabilidade para garantir que a organização jurídica conversa com a prática fiscal e a gestão.

É evitar que o plano de crescimento vire passivo.

Conclusão

Ter várias empresas no Simples Nacional pode ser uma boa estratégia — quando existe método. Mas, quando vários CNPJs surgem apenas para “organizar faturamento” sem separação real de operação, gestão e responsabilidade, a estrutura tende a ficar mais frágil, não mais segura.

Se você quer entender como esse tema se aplica à sua estrutura e qual desenho faz mais sentido para o seu negócio, fale com um especialista para uma análise do cenário e dos próximos passos.

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